terça-feira, 3 de novembro de 2009

Indicadores de desigualdade


JUACY SILVA

Estamos a pouco menos de um ano para a realização das eleições gerais no Brasil, quando serão eleitos um novo presidente da República, governadores, deputados federais e estaduais e dois terços do Senado da República. Isto significa que poderá haver uma grande renovação política e partidária, mesmo que boa parte da chamada classe política apenas troque de cadeiras e seja reconduzida através do voto popular às mesmas posições.
Muitos de nossos políticos estão ocupando posições nas estruturas do poder há mais de duas, três ou até quatro décadas e parecem que só se lembram do povo quando é período eleitoral, pois boa parte dos problemas que afetam e atormentam a vida da população, principalmente das famílias mais humildes continuam ou já passaram a fazer parte do cotidiano dessas camadas excluídas.
Há mais de meio século o Brasil vem debatendo a questão das desigualdades, principalmente as sociais, regionais, setoriais, de raça e gênero. Inúmeros estudos, teses, dissertações de mestrado, doutorado, pós-doutorado e de artigos já foram escritos. Milhares de discursos, principalmente nos palanques eleitorais, já foram proferidos, alguns indignados e outros com críticas candentes aos governos anteriores.
A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), ao lado do IBGE, do Ipea, da FGV e de outras renomadas instituições, tem realizado estudos aprofundados sobre a questão da desigualdade no Brasil e tem demonstrado que o Brasil é um dos países com os piores índices de exclusão social, miséria e pobreza no mundo e, seguramente, o pior entre os emergentes ou com Produto Interno Bruto (PIB) próximo ao nosso.
Esta desigualdade está patente na distância econômica e social, por exemplo, entre os estados da região Nordeste e o Centro-Sul do país, entre população branca, que já é minoritária, e negros e pardos, entre homens e mulheres e também entre o meio rural e o urbano.
O PIB, por exemplo, está altamente concentrado em poucos Estados, capitais ou outras cidades no Brasil. Isto acarreta uma enorme distorção do processo de desenvolvimento.
Dados divulgados recentemente pelo IBGE sobre a síntese dos indicadores sociais, relativos a 2006, apontam nesta direção. Da mesma forma os dados sobre o PIB demonstram que o Estado de São Paulo detém 33,9% do PIB brasileiro, que a região Sudeste representa 56,8% do total de bens e riquezas produzidos no país. Que o Nordeste, onde vivem quase 30% da população brasileira, detém apenas 13,1% do PIB.
O Estado de São Paulo possui um PIB bem maior do que a soma de tudo o que é produzido em 20 Estados que integram as regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Esta concentração econômica também ocorre em relação às capitais que representam 34,4% do PIB brasileiro. Da mesma forma, com exceção de Florianópolis, todas as capitais e regiões metropolitanas concentram entre 30% até 81,5% (caso de Manaus) do PIB de seus respectivos estados.
O índice Firjan de Desenvolvimento Municipal, tornado público em 2009, com base em dados de 2006, que considera três indicadores - emprego e renda, educação e saúde -, corroboram os níveis de desigualdade existente no Brasil. Dos cem municípios com os maiores índices 79 estão localizados no Estado de São Paulo; 4 em Minas Gerais; 7 em Santa Catarina; 4 no Paraná; 2 no Rio de Janeiro, 2 no Espírito Santo e 2 no Rio Grande do Sul. De outro lado, entre os 100 com menores índices, todos estão nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, inclusive em Mato Grosso.
A Baixada Cuiabana e mais 15 outros municípios do Estado de Mato Grosso, por exemplo, (com exceção de Cuiabá e de Várzea Grande que ficam entre os 450 municípios com melhores indicadores) estão próximos aos municípios com altas taxas de pobreza e miséria do Nordeste e Norte.
Seria importante que os políticos que começam a cortejar os eleitores, usando muita demagogia e falsas promessas para enganar os incautos, pudessem apresentar propostas concretas para que a curto ou médio prazo essas e outras desigualdades possam ser coisa do passado em nosso país.
Discurso não muda a realidade. O que muda a realidade são propostas claras, objetivas e concretas que possam ser transformadas em políticas públicas capazes de transformar radicalmente este quadro vergonhoso que ainda está presente no Brasil.
JUACY SILVA é professor universitário, mestre em Sociologia.
professor.juacy@yahoo.com.br


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